Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

Montagem com o logo do Troféu HQMIX

Sobre o Troféu HQMIX e a memória dos quadrinhos brasileiros

Uma investigação sobre o Troféu HQMIX, a memória das HQs no Brasil e os melhores quadrinhos brasileiros do século XXI

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Estamos em 2026. Aos trancos e barrancos, passamos o primeiro quarto de século e por algum motivo começaram a aparecer listas elegendo aqueles que seriam os melhores discos, filmes e livros do século XXI. Há listas mais gerais e outras com recortes geográficos, mas a que importa e que responde quais são os melhores quadrinhos brasileiros do século XXI, eu não encontrei. O mais próximo que achei foi essa matéria do Érico Assis falando sobre os quadrinhos que marcaram a década de 10. Então, como não encontrei, resolvi criar a minha própria lista. 

Enquanto pensava sobre a lista, acabei me lembrando de uma antiga discussão, que volta e meia aparece por aí na internet, sobre a memória dos quadrinhos nacionais e me veio a dúvida: quantas dessas HQs publicadas nas duas primeiras décadas do século estariam disponíveis para a compra? Afinal, do que adiantaria falar sobre elas, se ninguém conseguiria lê-las.

Para quem acompanha o mercado editorial de quadrinhos no Brasil, sabe que as tiragens por aqui são baixas, algo por volta entre 750 e 2.000 exemplares para as editoras menores, segundo o Relatório Quadrinhopédia do Mercado Editorial Brasleiro de Quadrinhos de 2021-2022 e chegando por muito alto a 15.000 unidades para editoras maiores e em títulos bastante específicos, como no caso da Pipoca & Nanquim com os mangás do Junji Ito. Reimpressões, por sua vez, são escolhidas a dedo com direito a posts, pesquisas e votações junto ao público.

Entre balanços comerciais e expectativas do público, muitas das editoras preferem jogar no seguro e focadas naquilo que elas sabem que irá vender. Indo um pouco mais fundo nessa linha de raciocínio e buscando refinar a busca por essas HQs, a conclusão me pareceu bastante óbvia, se as editoras focam em segurança, certamente que os quadrinhos que ganharam prêmios estarão por aí, certo?

A resposta curta é que nem sempre. Premiações são como faróis iluminando o título escolhido, o que por sua vez, pode se traduzir em mais vendas à medida que a notícia se espalha, há até um nome para isso: efeito vitrine. Contudo, tais honrarias não são garantias de que essas obras continuarão a ganhar novas edições no futuro e embora o teste do tempo possa engolir uma ou outra obra, a lista dos ganhadores sempre estará lá. Como diz o crítico, pesquisador e tradutor de quadrinhos Érico Assis:

Toda premiação tem um defeito que é essencial: ela não pode prever o futuro. Toda premiação, porém, tem algum poder de ditar o futuro: ela diz aquele quadrinho, aquele filme, aquela música que vai ser lembrado ou lembrada. Você consulta o histórico de décadas da premiação e a obra está lá, melhor do ano em alguma coisa. (Você pode ler o texto completo aqui)

Por isso, acabei juntando a minha curiosidade com a vontade de criar uma lista e achei por bem fazer uma investigação: É possível ler todos os ganhadores do Troféu HQMIX do século XXI? 

Mas por que o Troféu HQMIX?

A escolha pela premiação se deu por alguns fatores. O primeiro deles é a sua longevidade, está aí desde 1989. O segundo é por conta de sua aceitação entre público e profissionais da área, para muitos ele é o mais importante prêmio da nona arte brasileira. Terceiro, ele é totalmente dedicado à nona arte. Quarto, ele mexe com as mais diferentes paixões e que todo ano é motivo para as mais diferentes análises, polêmicas, vídeos, textos e carrosséis no Instagram.

Se não acredita em mim, faça uma busca no Google e você verá a quantidade de material acerca do Troféu HQMIX. Querendo ou não, é para ele que se voltam os olhos de toda a comunidade de pessoas que leem ou produzem quadrinhos no Brasil e olha que possuímos pelo menos dois outros prêmios grandes – o Prêmio Angelo Agostini e o Prêmio Grampo

Talvez o óbvio fosse fazer uma tentativa de compilar os ganhadores dos três, aparar as possíveis arestas e tentar entregar uma análise tentando aproximá-los, mas como cada um deles possuí critérios de votação, categorias e prioridades diferentes, achei que não seria o melhor caminho a ser tomado. Então, por isso, optei pelo plano inicial (ou secundário, se você preferir).

Como o texto acabou ficando mais extenso do que havia imaginado, escolhi dividi-lo em dois. Nesta primeira parte me debrucei como era o prêmio desde o seu início em 1989 até o ano de 2003 e os motivos para tal decisão foram explicados ao longo do texto e não foi somente por uma questão de melhor legibilidade, já que o texto ficou bem próximo das vinte páginas no total.

Passado essa pequena explicação, vamos ao texto!

Ganhadores – 1989 a 2003 

A primeira coisa que você deve saber é que entre 1989 e 2003, o HQMIX só contava com a categoria Edição Especial. Apesar do nome, podemos dizer que ela é a principal categoria do prêmio, algo como “a melhor HQ do ano”. Tanto que competiam títulos nacionais e estrangeiros publicados por editoras nacionais.

 Os ganhadores destes primeiros quatorze anos foram:

  • 1989 –  Anos de Ouro do Pato Donald vários autores (Abril)
  • 1990 – Batman Ano Um (Frank Miller e David Mazzucchelli / editora Abril Jovem)
  • 1991 – Lex Luthor – biografia não-autorizada (James D. Hudnall e Eduardo Barreto / editora Abril Jovem)
  • 1992 – Asilo Arkham – uma séria casa num sério mundo (Grant Morrison e Dave McKean / editora Abril Jovem)
  • 1993 – A arte de Rodolfo Zalla (Rodolfo Zalla / editora Editora D-Arte) 
  • 1994 – Fumetti – o melhor dos quadrinhos italianos (vários autores / editora Globo) 
  • 1995 – Pato Donald – 60 Anos (vários autores / editora Abril Jovem) Disney
  • 1996 – Batman – a queda do morcego – a vitória de Bane [Batman nº 1] (editora Abril Jovem) 
  • 1997 – Almanaque do Faroeste (Claudio Nizzi e Andrea Venturi / editora Globo)
  • 1998 – Metal Pesado – tudo em quadrinhos – edição comemorativa – 15 Anos Gibiteca de Curitiba (vários autores / editora Metal Pesado)
  • 1999 –  Linha de ataque – futebol arte (vários autores / editora Abril Comics)
  • 2000 – Super-Homem – paz na Terra (Alex Ross e Paul Dini / editora Abril Jovem)
  • 2001 – Restolhada (Marcatti /Opera Graphica)
  • 2002 – Saino a percurá (Lelis / independente)
  • 2003 – Filho do urso e outras histórias (Flavio Colin / Opera Graphica)

Gêneros literários

Em termos de gêneros, aqui utilizei a categorização do Guia dos quadrinhos, nos temos:Gráfico em pizza com as porcentagens de cada gênero encontrado na pesquisa

Como é possível ver, se somados os gêneros de Super-heróis e Infantil ocupam quase metade (46,9%) dos prêmios distribuídos. Analisando os títulos vencedores mais de perto – Anos de Ouro do Pato Donald (1989) e Pato Donald – 60 Anos (1995) – e os da DC Comics – Batman: ano um, Lex Luthor: Biografia Não-Autorizada, Asilo Arkham, Batman – a queda do morcego – a vitória de Bane e Super-Homem – paz na Terra – podemos ver que não é de agora que os Quadrinhos e suas premiações vivem este ciclo de nostalgia e reciclagem de velhos conceitos. 

Dito de outra forma, durante o período HQMIX prestigiou narrativas clássicas e já consagradas e com isso eu não estou dizendo que os prêmios não foram merecidos. Os títulos da DC marcaram a década de oitenta e muitas das histórias ali se tornaram clássicos da editora, assim como os títulos da Disney fizeram história no Brasil pavimentando muito do mercado durante os anos da editora Abril. 

Porém, é de se pensar se todo esse processo de infantilização do público tão criticado por Alan Moore não é algo intrínseco à cultura do fandom de quadrinhos, que preso a obras e personagens infantis não consegue se livrar de determinados vícios do passado. 

Editoras 

Escrutinando as editoras, é interessante ver o domínio da poderosa Editora Abril e seus selos Abril jovem e Abril Comics. Com um total de oito prêmios, a editora é responsável por 53,4% das HQs vencedoras, sendo seguida pelas editoras Globo e pela Opera Graphica, ambas com dois prêmios cada.

Dona das marcas DC, Disney e Marvel, não é de se impressionar que a Editora Abril tenha conseguido conquistar a maioridade dos prêmios na categoria “Edição especial”, mas não só. Ela também é a maior ganhadora, com um total de seis prêmios, na categoria Editora do Ano.

Gênero dos autores

Para aquelas pessoas que possuíam algum tipo de dúvida, a lista é praticamente composta por homens. O resultado só não foi 100% masculino, graças à presença de Grant Morrison, que em 2020 se declarou como uma pessoa não-binária, mas que ressaltou que não se importa se o chamam por pronomes masculinos ou neutros.

A conclusão, que de surpreendente não tem nada, deixa bastante claro como as críticas à indústria e as suas premiações não são infundadas como uma certa parcela de homens acredita. Afinal de contas, se dependermos desse recorte histórico do HQMIX, é como se não houvesse mulheres produzindo quadrinhos durante as duas décadas finais do século XX.

Mesmo quando olhamos para as outras categorias do prêmio, a presença de mulheres é ínfima, sendo que o Brasil sempre teve mulheres criando charges, tiras e quadrinhos em grandes revistas e jornais, tais como Cecília Alves Pinto, a Ciça, que publicava suas tiras no jornal “Folha de São Paulo” e teve duas coletâneas publicadas pelo “Pasquim” ali nos anos 1980 e Hilde Weber que trabalhou na revista “O Cruzeiro”, durante a década de 1930, no jornal “Tribuna da Imprensa” entre 1950 e 1960 e colaborou com o jornal “Estado de São Paulo”, onde publicou suas tiras por quase trinta anos.

Nacionalidades dos autores

Por falar em domínio, veremos o mesmo em relação às nacionalidades das HQs com amplo controle dos EUA na premiação. 

Vendo de outra forma a origem das HQ’s, é possível constatar que entre 1989 e 2003 o Troféu HQMIX viveu sob domínio estrangeiro com 66,7% das estatuetas indo para autores de fora.

Claro que se voltarmos nossos olhos a outras categorias do HQMIX iremos ver uma série de brasileiros ganhando prêmios como “Álbum clássico”, “Álbum de aventura”, “Álbum de terror” ou “Álbum infantil” e nomes como Ziraldo, Lourenço Mutarelli e Laerte figurando como grandes campeões com no mínimo seis estatuetas cada. Outro ponto alto nas vitórias brasileiras, que merece ser destacado, é a conquista de Holy Avenger de Marcelo Cassaro e Érica Awano que levou o prêmio de “Revista seriada” em 2002 e 2003, desbancando o império estrangeiro que durou uma década dentro da categoria.

Conclusão

Apesar disso, como os dados mostraram, a divisão da categoria era mais do que necessária e acredito que sem isso dificilmente teríamos uma lista de melhores HQs para chamar de nossa. Já que como podemos ver as HQs brasileiras apareciam como convidadas na principal categoria da premiação que se autodenomina como o “Oscar dos Quadrinhos no Brasil”.  Se bem que a alcunha diz “Quadrinhos no Brasil” e não “Quadrinhos brasileiros”…

Provocações a parte, o mais interessante a se notar em nossa análise desses quatorze anos de premiação é como ela representa e muito bem o ethos de uma época. Capitaneadas pela Editora Abril, é possível dizer que as publicações da Disney, Marvel e DC Comics foram os responsáveis pela formação de pelo menos duas gerações de leitores e profissionais da área no Brasil, refletindo assim nos números alcançados pelos títulos estrangeiros e pela própria editora paulista na premiação. 

Claro que não podemos deixar de lado a importância de outras editoras e artistas nacionais na criação do público em nosso país. Por exemplo, por muitos anos os quadrinhos de terror dominaram as bancas e possuíam uma produção frenética, chegando a ter 30 títulos disponíveis em 1963, para dar conta de tantos leitores cativos. Além disso, as próprias publicações da “Maurício de Sousa Produções” rivalizavam com as HQs Disney disputando os corações e mentes das crianças brasileiras, para se ter ideia os quadrinhos da Turma da Mônica chegavam a tiragens na casa dos milhares. 

Contudo, o mais importante é percebermos que a virada de século também marca uma virada de mentalidade por parte do júri e do grupo de votantes do HQMIX e finalmente as HQs brasileiras passam a performar na categoria “Edição especial” com três vitórias consecutivas. Agora os motivos que levaram a está guinada você pode ver na nossa parte dois. 

Um abraço e até lá!

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