Ficha Técnica

Buscavidas capa
Capa de: Alberto Breccia

Buscavidas
Autores:
Carlos Trillo (roteiro) e Alberto Breccia (arte)
Tradução: Jana Bianchi
Preço: R$ 69,90
Editora: Comix Zone
Publicação: Novembro / 2020
Número de páginas: 144
Formato: Preto e branco / Capa dura / Álbum de luxo
Gênero: Drama
Sinopse: Um estranho ser percorre as ruas de Buenos Aires atrás de pequenos casos. Em cada canto, uma nova vida a ser coletada, catalogada e devidamente fichada em sua coleção.

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Nos últimos anos, mais especificamente de 2018 para cá, há quem diga que o mercado de quadrinhos nacional se viu invadido por uma onda argentina, já outros que digam que eles sempre estiveram por aqui. Discussões à parte, o que importa é que o que vem cruzando a fronteira vem causando frisson a cada lançamento. E é lendo quadrinhos como Buscavidas de Carlos Trillo e Alberto Breccia que você percebe que todo esse alvoroço não é em vão. 

Publicada originalmente entre 1981-1982 na revista argentina Superhumor em treze episódios, a HQ contou com um décimo quarto conto totalmente roteirizado e desenhado por Breccia na revista italiana L’Eternauta em 1984. Sendo todos eles compilados neste volume único da editora Comix Zone que conta com dois prefácios e alguns esboços do desenhista uruguaio como extras.

Sendo este o meu primeiro contato com o roteirista argentino Carlos Trillo, já adianto a minha grata surpresa com tudo o que encontrei na HQ. O universo construído por Trillo é denso, violento, doloroso e a arte de Breccia é igualmente claustrofóbica e truculenta. Uma dobradinha mais que azeitada. 

Buscavidas e a ditadura militar argentina

O resultado dessa junção de talentos é a representação de uma Buenos Aires vivendo sob o julgo de uma das mais cruéis ditaduras militares da América Latina. Um regime, encabeçado por Jorge Rafael Videla, que foi responsável por inúmeras violações dos Direitos Humanos como censura, torturas, mortes e repressão política. Algo tão bestial que estima-se que o número de mortos e desaparecidos seja de trinta mil pessoas em um período de sete anos. 

Um processo desumano que posteriormente foi denominado como genócidio pela jurisprudência argentina e que contava com inúmeros centros clandestinos de detenção, ampla participação dos EUA, furto de bebês de opositores mortos e um sistemático plano de extermínio, comumente chamado de voos da morte

Arte de: Alberto Breccia

Não é à toa que a arte expressionista de Breccia contorce e desfigura seus personagens em uma desumanização intencional do corpo. Uma forma de refletir as angústias de se viver em uma sociedade doente e violentada. 

Contudo, a genialidade do desenhista não se reserva somente ao aspecto dos personagens e o próprio cenário dialoga diretamente com o leitor. Seja com figuras de mau agouro, como pássaros que lembram corvos, mensagens de “não” e “sim” largadas aqui e ali como avisos e até subtramas ocorrendo no fundo dos quadros. De tal forma que encontramos diferentes camadas de símbolos que ajudam a compor os cenários e a denunciar toda a brutalidade da época. Por isso, pousem o olhar sob as páginas com cuidado, absorvendo os detalhes, pois há muito a se ver e sentir lendo a HQ.

E em todo este cenário de pesadelo ilustrado por Breccia é Buscavidas que se destaca. Esta enorme, desfigurada, pálida, de olhos miúdos e obesa efígie que percorre as ruas, becos e vielas da capital argentina em busca de terríveis histórias para a sua coleção.

A trivialização da violência em Buscavidas

Atuando como um mestre de cerimônias, assim como o Uncle Creepy da antológica Creepy, Buscavidas serve não apenas para iniciar e arrematar as histórias, mas também como pedra angular dessa apavorante Buenos Aires criada por Carlos Trillo. Sem ele e seu semblante impassível, muito do terror e do impacto das fábulas do roteirista se perderiam. 

E é aqui que podemos perceber os motivos que tornam a HQ tão especial. Ao conceber o protagonista como alguém que se recusa a agir, mesmo em momentos que pode evitar ou desfazer acontecimentos trágicos, e que somente se importa com si e sua coleção, Trillo dá à Argentina e aos leitores um vislumbre da monstruosidade da trivialização da violência. 

Arte de: Alberto Breccia

Nada choca Buscavidas. Nem o machismo de O ciumento, história que abre o volume, muito menos a sordidez de um empresário inescrupuloso em Stae system ou os atos de um déspota destituído em A opção. Tudo que o que lhe é externo é indiferente e quando “às vezes, quando uma história passa perigosamente perto de mim, aplico o velho truque do toureiro: dou um passo para o lado e digo ‘olé”’, como ele mesmo diz. 

Apesar disso, não são poucas as situações em que vemos o personagem se lamentar se os relatos coletados não o agradam ou se comportar de maneira bastante questionável em prol da sua coleção. Como podemos ver em A vida é um bolero absurdo ou em Fugindo do Valdés, o que revela todo o egoísmo do personagem.  

Toda essa forma de agir do protagonista é necessária para que as fábulas de Trillo funcionem. É com ela que o roteirista argentino demonstra a normatização do absurdo, do trauma de um cotidiano sanguinolento onde a vida pouco vale.

Contudo, toda esta imobilidade é posta à prova em Caleidoscópio, último episódio da HQ, escrita por Alberto Breccia e publicada em 1984. O que talvez explique a relutância de Trillo em um primeiro momento de considerá-la canônica, mas colocar Buscavidas para confrontar todo o terror vivido durante o período militar fecha a HQ de forma estrondosa.

Conclusão

Ler Buscavidas foi uma experiência deslumbrante. A arte expressionista de Breccia é intensa e nos conduz por um universo preto e branco cheio de nuances e no qual o leitor se pega passando os olhos várias vezes pela mesma página. E sempre encontrando algo a cada nova leitura, diga-se de passagem. Já o texto de Carlos Trillo é contundente em expressar diferentes aspectos da sociedade argentina da época ao mesmo tempo em que cria algo universal investigando múltiplas facetas da psique humana.

Nota: 5 de 5

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Autor: Thiago de Oliveira

Há mais de duas décadas lendo e colecionando quadrinhos. Tem mais da metade do que gostaria e menos do dobro do que queria ter. Não dispensa um pão de queijo, um café e uma cerveja.

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