Ficha Técnica

Guardiões do Louvre capa
Capa de: Jiro Taniguchi

Guardiões do Louvre
Autores: Jiro Taniguchi (roteiro e arte)
Preço: R$59,90
Editora: Pipoca & Nanquim / Louvre éditions
Publicação: 2018
Número de páginas: 136
Formato: (23 x 31 cm) Colorida / Capa Dura
Gênero: Mangá

 

 

Sinopse: Um febril artista japonês caminha pelos corredores do Louvre e pelas encruzilhadas entre a história da arte ocidental, o Japão e a sua própria vida. E nesse processo de flanar por Paris e vilarejos próximos, vários encontros numa jornada onde a fantasia e o real se confundem para contar uma história de amor a Arte e a Vida. 

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Entrada

Há na obra do filósofo alemão Walter Benjamin a figura do flâneur. Surgida através de suas tentativas de explicitar as transformações sociais oriundas da expansão economia e a explosão demográfica de cidades como Londres e Paris. O flâneur é, em poucas palavras, o leitor da cidade. É aquele que vaga pelo espaço urbano de forma descompromissada, sem rumo, a procura de experiências sensoriais que possam lhe causar prazer; ao mesmo tempo em que decifra os sentidos da vida urbana e quem sabe da sua própria. E o que tudo isso tem haver com a obra Guardiões do Louvre do mangaká Jiro Taniguchi? 

Para aqueles já familiarizados com a obra do quadrinista japonês, talvez a descrição acima já tenha entregue muito do que esperar dessa linda homenagem, que é o mangá, a um dos mais famosos museus do mundo. Agora para os não-iniciados, o que posso dizer é que estamos diante de mais um dos longos passeios de Taniguchi. Uma longa e prazerosa caminhada onde o autor nos coloca para acompanhar o itinerário de um artista japonês que flana pela cidade Luz e seus arredores; pela História da Arte; pelo Louvre e por história de despedida e saudade.

O mangá é fruto do projeto Le Louvre et la bande dessinée da editora Futuropolis com o Museu do Louvre, que de tempos em tempos convida um quadrinista para lançar um novo olhar acerca do museu. A primeira obra lançando pelo projeto foi a HQ Període Glaciare pelas mãos do quadrinista Nicolas De Crécy em 2005 e nesse meio tempo muitas outras HQs foram lançadas e até mesmo uma exposição ocorreu em 2008 no próprio Louvre com  as artes de alguns quadrinistas.

Na França, o mangá foi publicado em dois formatos diferentes. Em 2014, no formato álbum (23 x 32,5 cm.) e totalmente colorido e em 2017, ele foi publicado em preto e branco e em um formato menor 19,5 x 26,5 cm.. Já no Japão, os capítulos de Guardiões do Louvre foram publicados pela na revista seinen Big Comic Original, sendo publicada no formato álbum por lá em 2015. 

Aqui no Brasil, ela chega pela editora Pipoca & Nanquim num formato bem parecido com o de sua primeira publicação na França: colorido e com 23 x 31 cm. Um calhamaço difícil de se colocar numa estante por sinal.

Caminhando por Paris e pelo Louvre

Dividido em cinco capítulos, Guardiões do Louvre possui uma estrutura episódica  onde Taniguchi se dedica a contar os momentos, as sensações e os encontros ocorridos em um único dia da vida do personagem principal. A ideia é que possamos desfrutar desses passeios e flanar pelas sensações que a cidade nos causa. 

Arte de: Jiro Taniguchi

Não à toa que, assim como na vida real, muitas das pessoas e situações pelas vivenciadas pelo nosso artista japonês não estão necessariamente interligadas. Afinal de contas nas encruzilhadas das vida muitos vêm e vão, mas sempre há aqueles que permanecem, mesmo que esquecidos. O que nos leva a trama paralela que Taniguchi vai desenvolvendo ao longo dos capítulos. Mas vamos com calma, pois ainda há muito ser dito sobre o mangá.

No primeiro capítulo, somos apresentados a cidade de Paris, suas ruas, o museu do Louvre, ficamos sabendo um pouquinho do personagem principal e somos apresentados a guardiã mor do museu: a Vitória de Samotrácia. É ela a principal guia nesta jornada onírica, explicando as regras dos devaneios que afligem o nosso herói e que também avisa, em tom sentencial, que a partir daquele uma fronteira foi cruzada e que o mundo real e o mundo onírico irão coexistir até o final deste passeio. 

Um fato interessante é que para fazer esta amarração entre o real e o fantástico, o mangaká utiliza-se do estado de convalescença. Recuperando-se de uma febre e estando no limiar entre a saúde e a doença, a situação do protagonista remete a tantas outras figuras que mergulham na paisagem e massa urbana e que possuem este estado eletrificado, tais como: o pintor Constantin Guys e o narrador do conto “O homem da multidão do escritor” norte-americano Edgar Allan Poe. 

O flanar, as memórias e o caminhar como fluxo de consciência

Os capítulos intermediários (2-4) funcionam como verbetes de uma enciclopédia, onde um assunto leva a outro em um fluxo de memórias, entroncamentos, encontros e saberes do personagem principal. E neste processo o que vemos é um desfilar de pintores, quadros, a história do Louvre, paisagens, ruas, a importância das obras de arte e o mais relevante: o amor daqueles que trabalham na conservação e divulgação das obras. 

No segundo capítulo, somos apresentados a uma intricada relação entre a arte ocidental e a arte japonesa através das figuras do poeta japonês Kenjirō Tokutomi, o pintor francês Camille Corot e o pintor japonês Chū Asai. Todo esse rebuliço é apresentado de forma maravilhosamente imagética com reproduções dos quadros de Corot que enchem as páginas e os olhos. Além disso, de quebra ainda temos uma aula sobre as noções do pintor francês acerca da Pintura e sua influência no Japão. 

Já no terceiro o trajeto se inverte e vemos a influência da arte japonesa numa das figuras mais significativas da arte ocidental: Van Gogh. Saindo de Paris e visitando a cidade de Auvers-sur-Oise, local onde Van Gogh morou até a sua morte, o protagonista tem um emocionante encontro com o pintor holandês. Encontro este no qual são citados alguns pintores japoneses que o influenciaram, e que estão em sua coleção particular, e o desenvolvimento do quadro “O jardim de Daubigny”.

Arte de: Jiro Taniguchi

Um fato curioso é que a maior parte da coleção particular permanece até hoje no museu Van Gogh com direito a uma exposição em 2018 para celebrar essa relação e que você pode saber mais aqui.

Os verdadeiros Guardiões do Louvre – uma história da 2ª Guerra

O quarto capítulo é dedicado totalmente a Jacques Jaujard, vice-diretor da reunião dos museus nacionais da França, e a sua luta para preservar as obras existentes no museu durante a invasão e ocupação dos nazistas em Paris. 

Acima de tudo, este penúltimo capítulo é uma ode ao trabalho de todos aqueles que trabalharam durante este período e aos obstáculos que tiveram de serem vencidos para que uma boa parte do museu fosse deslocado para áreas mais seguras. E o que não faltou foram momentos de prender a respiração durante esse gigantesco trabalho. Onde, Taniguchi acaba destacando dois: o transporte da pintura A Balsa da Medusa do pintor Géricault e da Mona Lisa.

E se você quer saber mais sobre este período da história do museu existe um filme chamado Francofonia – Louvre sob Ocupação do diretor russo Alexander Sokurov que estreou em 2016.

Todavia, o mais importante deste capítulo é a mensagem que o mangaká nos passa sobre a Arte e como a sua força de transformação não é nada se não houver pessoas que a reconheçam enquanto tal e que trabalham incessantemente para que outras pessoas possam ter acesso aos seus objetos e manifestações.

Conclusão

Como dito anteriormente, o mangá possui uma estrutura episódica onde cada capítulo pouco ou nada dialoga com o seu sucessor. Isso funciona tanto para reafirmar que cada passeio reserva surpresas e encontros únicos, mas também para explorar e aprofundar facetas da história do Louvre. Afinal de contas é para isso que projeto Le Louvre et la bande dessinée foi criado.

Mas no capítulo final de Guardiões do Louvre se mostra como um ponto fora da curva e terminamos o mangá com um reencontro para curar uma antiga ferida do protagonista. E o que pode desagradar alguns, já que não há espaço para o desenvolvimento deste drama pessoal, apenas vem para frisar mais uma vez um aspecto do flanar: a beleza do efêmero e do transitório. Às vezes certos encontros não precisam de muitas explicações, apenas que aconteçam. 

Por último, o mangá possui um ritmo lento e que pode não agradar a todos, mas que é imprescindível para a degustação das imagens e passagens que Taniguchi expõe com toda maestria característica em toda a sua trajetória na Nona Arte. 

E caso você ainda não tenha tido contato com o arte do flanar pelas cidades recomendamos a série Samurai Gourmet, baseada no ensaio de Masayuki Kusumi e no mangá do mesmo título, do Netflix.

Nota: 3 de 5.

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Autor: Thiago de Oliveira

Há mais de duas décadas lendo e colecionando quadrinhos. Tem mais da metade do que gostaria e menos do dobro do que queria ter. Não dispensa um pão de queijo, um café e uma cerveja.

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