Ficha Técnica

Soldado Desconhecido - Garth Ennis | De Segunda Resenha
Capa de: Tim Bradstreet

Soldado Desconhecido
Autores: Garth Ennis (roteiro) e Kilian Plunkett (arte).
Preço: R$ 18,90
Editora: Ed. Panini / DC – Vertigo
Publicação: Dezembro / 2018
Número de páginas: 112
Formato: Americano (17 x 26 cm.) Colorido / Lombada Quadrada / Capa cartão
Gênero: Suspense
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Sinopse: Conheçam o Soldado Desconhecido. Um agente sem nome e sem rosto que atuava na 2ª Guerra Mundial fazendo aquilo que mais ninguém conseguia fazer. 40 anos depois, após o seu desaparecimento, o agente da CIA William Clyde busca por respostas para encontrar o lendário operativo, mas nesse rastro há mais corrupção, mentiras e assassinatos do que a história dos EUA conta ao seu público.

Entrada

Os EUA possuem um vasto acervo de obras que procuram investigar o ethos do país norte-americano. O que são os EUA? O que dá ao país a base para que se achem no direito de “policiar” o mundo? E principalmente o quanto isso custa para os seus cidadãos? Já que para muitos estadunidenses o patriotismo e o cumprimento do dever são valores indiscutíveis. E é na rabeira dessas questões que a HQ de Garth Ennis vem.

Para leitores mais ávidos da bibliografia de Ennis, essa sua investigação acerca do país não é exatamente uma novidade. Preacher e The Boys são outros quadrinhos do autor que também procuram escrutinar o lado sombrio do país com todo o seu humor ácido e violência tão característicos.

Mas não é somente o quadrinista norte-irlandês que navegou por essas águas dentro do selo Vertigo da DC Comics. HQs como Os Invísiveis de Grant Morrison, Shade – o homem imutável de Peter Muligan e Tio Sam Steve Darnall e arte de Alex Ross. Fora da Vertigo, a run de Dennis O’Neil e Neal Adams nas história do Lanterna Verde & Arqueiro Verde, assim como a HQ America de Robert Crumb também procuram analisar o ethos dos Estados Unidos da América.

Todas essas obras e a abrangência dos autores são um sinal de como a cultura norte-americana cruzou os mares e se infiltrou nos mais diferentes países. Mas nós sabemos que essa jornada foi pavimentada pelos interesses políticos e econômicos do governo dos EUA e em o Soldado Desconhecido descobrimos quem é o responsável por cuidar dos interesses do país.

Soldado Desconhecido - Garth Ennis | De Segunda resenha
Arte de: Kilian Plunkett

O Soldado Desconhecido – um breve relato

Contudo, o personagem não é uma criação de Garth Ennis, sendo ele um dos personagens concebidos por Robert Kanigher e Joe Kubert para as histórias de Guerra da DC Comics.

Sua primeira aparição foi na HQ Our Army At War #168 (junho de 1966) como coadjuvante nas histórias do Sargento Rock. Quatro anos depois Kubert levou o personagem para estrelar suas histórias em outra HQ, a Star Spangled War Stories, que teve seu título alterado para The Unknown Soldier após o número 151.

Mantendo a numeração de sua antecessora, esta primeira fase durou 64 edições e se encerrou no número 268 em 1982.

A inspiração para o seu nome são os monumentos, como o do cemitério militar de Arlington no Estado da Virgínia, aos combatentes não identificados mortos em batalha. O próprio cemitério de Arlington é um elemento constante de sua mitologia.

As histórias dessa época se concentram no período da Segunda Guerra Mundial e mostram as missões de um desfigurado espião norte-americano, com o rosto coberto por bandagens e ataduras. Mestre dos disfarces, o operativo é capaz de assumir as mais diversas aparências e a única forma de reconhecê-lo é através de um leve tique nervoso: o soldado coça, de forma peculiar, o seu rosto onde a maquiagem encosta em suas cicatrizes.

Uma segunda fase do personagem foi escrita por Christopher Priest e desenhada por Phil Gascoine. Sendo publicada na revista The Unknow Soldier entre 1988 e 1989 com um total de 12 edições. Nesta run, o personagem passou por uma mudança drástica sendo transformado em imortal e tendo um comportamento mais cínico em relação aos EUA e a sua política.

Entretanto nesses anos o Soldado Desconhecido passou por algumas reformulações e como nos lembra o editor Alex Alonso no prólogo desta edição:

O Soldado Desconhecido, para aqueles que nunca ouviram falar dele, residia às margens da clássica linha de quadrinhos de guerra da DC Comics. Se o Sargento Rock era, digamos, Superman – um guerreiro de queixo duro e nutrido a milho, protetor de Deus, do país, da Mamãe e da torta de maçã -, o Soldado era, bem, um personagem muito mais difícil de definir.

Bem, na leitura de Ennis, o personagem é alguém que esta disposto a cumprir as mais sombrias missões a fim de garantir os interesses políticos dos Estados Unidos. Um patriota que acredita piamente em seu país e em tudo aquilo que ele representa.

Publicada originalmente em quatro edições em 1997 nos EUA, a minissérie chegou ao Brasil pela primeira vez em 1998 publicada em duas partes na finada revista Vertigo DC / Metal Pesado que teve como casa as editoras Metal Pesado, Tudo em Quadrinhos e Atitude. Nesta nova roupagem, publicada em 2018, a história de Garth Ennis é trazida pela Editora Panini em um único volume com direito a alguns dos esboços de Kilian Plunkett e do capista Tim Bradstreet.

Um homem no lugar e na hora certa, pode vencer uma guerra

Em o Soldado Desconhecido, somos levados aos EUA quarenta anos após o final da 2ª Guerra Mundial e apresentados ao agente da CIA William Clyde. Visto com desconfiança por seus superiores e com zombaria por seus companheiros, Clyde é um verdadeiro pária na agência graças ao seu comprometimento ao trabalho e ao seu rígido código moral.

Singular representante do ethos norte-americano: patriota, defensor da liberdade e da democracia, sua posição pode ser explicada por estar em um local acrônico e representar um ideal rechaçado pela descrença dos mais jovens e pelo cinismo dos mais velhos. E é esse espaço que será a força motriz do thriller político de Ennis e que levará o personagem ao embate com o antigo operativo de codinome Soldado Desconhecido. Afinal de contas este conto da Vertigo pode ser lido como um confronto de gerações e da maneira como novos e antigos soldados vêem o que é ser um defensor do american way of life e o quanto se está disposto a cruzar linhas morais em suas defesa.

Garth Ennis - Soldado Desconhecido | De Segunda Resenha
Arte de: Kilian Plunkett

E Ennis deixa isso bem claro, logo no início da HQ quando Clyde está sendo repreendido por seus superiores após retornar de uma missão na América Latina. Para ele, missão dada é missão cumprida, mas dentro dos limites do Direito da Guerra e essa sua posição será colocada a prova a medida em que adentra aos meandros da política externa norte-americana através dos relatos das ações do Soldado Desconhecido.

Acompanhando os passos de Clyde em sua investigação, a HQ é um imenso recordatório das interferências dos Estados Unidos na política interna de diferentes países através do globo desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Irã, Cuba, Camboja, Vietnã são alguns dos países que sofreram violentas interferências disfarçadas de defesas da democracia e da liberdade, mas que serviam somente aos interesses políticos do país e que tinha na figura do Soldado Desconhecido o seu cão de guarda.

Que Deus salve a América

Kilian PlunkettE alicerçados em que os EUA fazem isso? A resposta de Ennis expressa bem a forma como o país dos pais fundadores se vê, pois para o antigo operativo do Exército norte-americano é o direito moral que coloca seu país acima de todos os outros. Para ele, os Estados Unidos estão sempre certos e tudo o fazem está certo, pois o país é o último bastião da moralidade em um mundo deturpado capaz de gerar a “besta-fera em si”: o nazismo. Dessa maneira é a própria 2ª Guerra Mundial o catalisador para a formação da ideia dos Estados Unidos como paladino da democracia e do mundo livre.

Mas esta ideia não é uma verdade em si e aos longos dos anos desconstruída pelos atos criminosos cometidos pelo próprio país ao longo dos anos. E a força da HQ está justamente em condensar o desmonte desta imagem em suas 112 páginas, já que a investigação de Clyde acerca de quem é o Soldado Desconhecido é uma metáfora para esse processo.

O que por sua vez torna o diálogo entre os dois personagens nas páginas finais da HQ um embate ideológico sobre o que é ser um soldado da América e consequentemente o que são os Estados Unidos da América. Paladinos da justiça e do mundo livre ou imperialistas cruéis? A resposta está em uma cova aberta, do cemitério de Arlington, destruída por duas ou três granadas de fósforo branco.

Nota: 4 de 5.

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Autor: Thiago de Oliveira

Há mais de duas décadas lendo e colecionando quadrinhos. Tem mais da metade do que gostaria e menos do dobro do que queria ter. Não dispensa um pão de queijo, um café e uma cerveja.

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