Ficha Técnica

Jeremias: Pele - Graphic MSP | De Segunda
Capa de Jefferson Costa

Jeremias: pele
Autores: Rafael Calça (roteiro), Jefferson Costa (arte)
Preço: R$ 31,90
Editora: Ed. Panini
Publicação: Abril/2018
Número de páginas: 100
Formato: (19 x 26 cm) colorido / lombada quadrada
Gênero: Juvenil
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Sinopse: Jeremias é um garoto inteligente, alegre, com vários amigos na escola e uma família feliz e radiante, mas terá que se reinventar ao confrontar, pela primeira vez, o preconceito por causa da cor de sua pele. Nesta releitura do personagem do quadrinista Maurício de Souza, encontramos uma história sobre a dor do preconceito, mas também sofre o poder de sonhar ser mais.

Entrada

“A vdd é que o mundo e, especialmente a política, nunca foram favoráveis a nós, mulheres, pretos, gays, deficientes, pobres”

É com essa fala de uma pessoa muito importante que quero começar a minha resenha. E quero começar por ela, pois Jeremias: pele do roteirista Rafael Calça e do desenhista Jefferson Costa fala justamente dessa experiência: a tomada de consciência por parte de um menino negro que o mundo não é favorável a ele. Que estar no mundo é estar em meio a uma luta constante pelo direito de existir, de ter sua voz ouvida, de poder ocupar espaços, mas acima de tudo pelo direito de poder se amar e se orgulhar de quem se é.

Alguns podem desmerecer esta experiência com o famoso “mimimi”, mas fora das bolhas o sofrimento causado pelos discursos de ódio, como o racismo, o machismo, a homofobia e tantos outros, é real e não pode ser visto como algo menor. Esses discursos fazem vítimas todos os dias, mas também atuam de forma perniciosa no campo simbólico de nossa sociedade.

A falta de representatividade e a exposição diária a esses discursos (reproduzidos de forma sutil, mas incessante), faz com que cresçamos sem referências positivas sobre quem podemos ser e nos tornam refém de discursos alienantes sobre quem somos. Por isso representatividade conta e conta muito. E neste sentido, Jeremias: pele vem para reparar essa falta de representatividade nos quadrinhos nacionais e o faz de uma forma muito forte e bonita.

Arte de Jefferson Costa

Jeremias: pele ou do tornar-se negro

Ao ler a história de Jeremias, não consegui parar de pensar no livro de Neusa Santos Souza, o Tornar-se negro ou as vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social, e consultando o livro novamente me deparei com a seguinte frase no prefácio escrito por Jurandir Freire Costa:

“Aqui, a dor cria a noção; a indignação; o conceito; a dignidade; o discurso”.

Apesar de estar se referenciando a obra de Neusa Santos, a fala de Jurandir pode ser muito bem transposta para descrever esta décima oitava Graphic MSP. É através do choque com o racismo e a dor ocasionada por isso que a história de Jeremias verdadeiramente se inicia, pois não se nasce negro, torna-se. E é a construção dessa noção que Jeremias: pele irá nos contar.

Para aqueles que estranharam a afirmativa acima fiquem com essa cena do Super Choque que eu pesquei lá no twitter do Load.

Como na jornada do herói, a história de Jeremias começa no mundo ordinário e nas primeiras páginas da HQ somos apresentados ao mundo idílico onde vive o nosso protagonista. Vivendo com os pais em um apartamento espaçoso, tendo acesso a diferentes bens culturais (cinema, quadrinhos) e estudando em um bom colégio, a realidade onde Jeremias está inserido é bem diferente de outras crianças negras que vivem no Brasil.

A sutileza desta introdução ao personagem é a sua dupla função simbólica, pois ela serve para quebrar os estereótipos relacionados a personagens negros, como para indicar que dentro do universo doméstico nosso pequeno Jeremias está protegido das mazelas racistas de nossa sociedade. Ademais, ainda sobra espaço para uma referência sensacional ao nosso querido morcegão.

O racismo e sua violência

Acompanhando estas primeiras páginas também temos um vislumbre de quem é Jeremias: um garoto esperto, interessado em tecnologia e ciência, vivaz, rodeado por amigos e o melhor aluno da sala. E assim como muitas crianças negras, é na escola que ele irá se confrontar pela primeira vez com racismo. Seu primeiro contato com a crueza dessa realidade advém de um trabalho escolar até então bobo, em uma mostra de profissões a professora vai escolhendo os alunos e dizendo sobre o que eles deverão vir caracterizados e apresentar ma redação.  E como algo tão bobo pode se tornar uma experiência tão traumática?

Arte de Jefferson Costa

Simples, retire de uma criança a sua capacidade de sonhar, limite-a e não a defenda das risadas vexatórias da turma e por fim desmereça sua fala. E tudo isso é mostrado numa sequência dura e excruciante que termina com um Jeremias acuado, sozinho e desamparado frente a essa violência. E se para muitos essa cena não é uma violência ou pode simplesmente parecer drama vem comigo um pouco.

Pessoas brancas veem-se refletidas na mídia com tanta frequência e naturalidade que essas representações midiáticas passam despercebidas de suas consciências. Para elas, novelas são só novelas, filmes são só filmes, propagandas são só propagandas e gibis são só gibis. E isto acontece, pois há uma anuência entre o que é visto e as representações internas encontradas em suas psiquês. Em outras palavras, há uma correspondência entre o mundo e suas próprias expectativas num processo que apenas reforça a sensação de pertencimento e harmonia.

E todo este sistema produz uma hierarquia estética, religiosa, cultural e política que identifica brancos e seus preceitos como superiores, garantido assim uma série de privilégios. Daí que o racismo é um problema de pessoas brancas e  que se faz urgente que elas tomem consciência disso e participem das discussões. Para saber mais, fica aqui o link da entrevista da pesquisadora Lia Vainer Schucman ao Intercept.

Representatividade importa

Para nós, negros, essa falta de representatividade nos mostra não só um mundo a qual não pertencemos, mas um no qual não existimos. E com isso, crescemos em busca de lampejos midiáticos onde possamos nos ver, afinal de contas o desejo de pertencimento e afinidade é algo universal. Podemos ver um pouco dessa procura nessa reportagem da Vice.

Ainda na introdução da HQ, vemos Jeremias observar com admiração a decolagem do astronauta negro Pereira, chefe imediato do Astronauta. Agora imaginem o impacto que é ligar a TV e ver alguém como você indo desbravar os mais longínquos cantos do espaço e são pequenos detalhes assim que moldam uma criança.

Contudo, presenciar uma figura de autoridade, a professora, dizendo que ela não pode ser aquilo que deseja, pois é incomum a alguém como ela, o que se tem é o choque, a dor e porquê não a raiva. Ainda mais quando se nota no ar uma série de perguntas: por que a professora não escolheu uma profissão de comando para Jeremias? Por que pedreiro? Por que é incomum? A resposta que paira neste silêncio é  o racismo, Jeremias é negro e negros não podem e nem tem a capacidade para acessarem estes cargos.

Eis o primeiro contato de Jeremias com o racismo. Invisível, mas implacável, ele permeia toda as nossas relações e está estruturado em nossa sociedade e em nossas consciências. Digo isso, pois na falta de representações positivas quanto a sua negritude, nós negros interiorizamos um modelo de identificação impossível de se cumprir, como nos lembra Neusa Santos: o fetiche da brancura. Afinal de contas ser branco é ser bonito, é ter acesso a bens e experiências negadas a pessoas negras.  E buscando esse ideal o que temos é a obliteração da psique do indivíduo, pois a realização deste fetiche é antagônico a seu próprio corpo e sua história.

Arte de Jefferson Costa

Alguns apontamentos

Durante a trama veremos outros modelos racistas e que repercutem o desastre que é a busca pela realização desse fetiche. As violências sofridas para se condicionar a um padrão de beleza que nunca será nosso, falas que tentam amenizar o racismo sofrido ou comentários ditos como agrados. Tudo isso esta na HQ, mas não para servir de gatilho ou para elencar as agressões diárias a população negra, mas para nos lembrar que todo ato é um ato de resistência.

Mas temos que lembrar que o racismo é um problema das pessoas brancas e que é necessário que todos

E para além do racismo, Jeremias: pele ainda abre espaço, mesmo que breve, para o machismo existente nas nossas relações diárias e que também castram inúmeras meninas nas escolas. Já que a professora não acredita que Bruna, a amiga de Jeremias, possa ser uma jogadora de futebol e acaba escolhendo para ela a profissão de decoradora.

Por último, um comentário acerca da escolha pela profissão dada a Jeremias e a força do texto de Rafael Calça. Ser pedreiro, porteiro, faxineiro, lixeiro e tantas outras profissões não é um demérito e Jeremias também irá aprender isso em sua jornada. Neto de pedreiro e filhos de arquitetos, Jeremias chegará no dia da apresentação com a noção de que não há problema na profissão que lhe foi dada, o real problema está nas falas racistas que tentam diminuí-lo, retirando o seu protagonismo na escolha de quem quer ser. E seu discurso durante a apresentação é um momento catártico e uma linda mensagem de determinação a tantas outras crianças (e adultos) negras mundo afora.

Conclusão

Falar de todas as nuances do roteiro de Calça é algo maior que o espaço que nos cabe aqui, mas deixe-me dizer que é uma trama contundente, forte e que vem para servir como escudo e não band-Aid, para ficar com uma das falas do Emicida em seu texto na contracapa. E além de contar com um roteiro incrível, Jeremias: pele conta com a estupenda arte do Jefferson Costa.

Jefferson, é dono de um traço estilizado e bem dinâmico, o desenhista utiliza vários recursos visuais que ajudam a enriquecer ainda mais o roteiro. Seja no uso das cores, da escolha de ângulos e enquadramentos, passando pelo uso das sombras dos personagens e dos balões de falas, o temos aqui é um artista com total compreensão dos elementos da nona arte e da quantidade de informação que pode ser disposta em um único quadro (Alan Moore ficaria orgulhoso), então atente-se aos detalhes, pois a ambientação de Jeremias é de tirar o chapéu. Além de contar com easter eggs que aprofundam e contextualizam dentro de um mesmo universo algumas das HQs do selo Graphic MSP.

E falando do selo, Jeremias: pele é a décima oitava HQ publicada dentro do selo que não tem dado caras de cansaço e que esperamos que continue a trazer grandes pérolas como essa.

Nota: 5 de 5

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Autor: Thiago de Oliveira

Há mais de duas décadas lendo e colecionando quadrinhos. Tem mais da metade do que gostaria e menos do dobro do que queria ter. Não dispensa um pão de queijo, um café e uma cerveja.

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