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Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

O lombadeiro - ele é esse delírio

O lombadeiro: ele é esse delírio

Quem é o lombadeiro? Do que se alimenta? Por que tantas fixação em lombadas? Hoje teremos as respostas.

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Sumário

A era das grandes coleções como as da Salvat e da Planeta DeAgostini acabou. Talvez não vejamos novamente aquelas longas coleções com lombadas pensadas para formarem um mural para ser exposto em nossas estantes. Talvez o último suspiro dessa tendência, tenha sido a coleção A espada selvagem de Conan da Panini, iniciada em 2019 e finalizada em 2022. Contudo é inegável que o mercado de quadrinhos brasileiro e até o próprio gosto do público tenha sido reformulado através dessa veia colecionista, formando assim o famoso lombadeiro. 

Mas se chegamos ao término desse período, por que falar sobre esse ser que se tornou motivo de piada e ojeriza? Bem, a razão é bastante óbvia: ele ainda está no meio de nós. 

O colecionismo continua dando o tom e a tônica do mercado de quadrinhos nacional. Quase como que em um movimento natural, em parte para atender a própria sanha colecionista que tomou conta do público, a maior parte das editoras procurou ter uma coleção para chamar de sua. Elas só não formam mais uma lombada-mural nas estantes, mas a lógica que permeia essas antigas coleções ainda se faz presente.

Essa lógica, que muitos de vocês já devem ter percebido, foi o aumento considerável do uso de quadrinistas famosos e já bem estabelecidos pelas editoras. Algo que o crítico de quadrinhos Alexandre Linck, lá do Quadrinhos na sarjeta, chamou de star system. E desde quando esse vídeo saiu, esse processo se intensificou, passou a ser questionado, tornou-se alvo de anedotas e já começou a dar sinais de cansaço. Afinal de contas, muitos desses quadrinistas que se tornaram alvos desse processo, já faleceram. 

Junto com esse movimento de declínio do star system, o próprio público consumidor de quadrinhos passou a questionar o papel de influenciadores em todo esse consumismo exacerbado. Contudo, mesmo havendo essa confluência, alguma coisa do lombadeiro persiste no mercado e acredito que estejamos vendo uma nova etapa desse processo: a ascensão e consolidação do omnibus

O formato omnibus e o “livro de mesa”

Fazendo uma rápida pesquisa no Guia dos quadrinhos, atualmente são 42 títulos dentro do formato. Sendo a grande maioria publicados pela Editora Panini, seguida de perto pela Editora Mythos. 

A Mythos foi a pioneira dentro do segmento publicando ainda em 2019 o seu Hellboy omnibus nº 1 (em registro no Guia dos Quadrinhos), mas foi rapidamente ultrapassada pela Panini que já conta com 32 títulos (em pesquisa feita no Guia dos quadrinhos) e contando, já que a editora italiana vem fazendo novos anúncios a cada semestre.

Imagem encontrada na internet, sem autoria definida

O que importa, é que o omnibus veio para ficar e, apesar de controverso, possui um número igual de detratores e defensores. Porém, o ponto é que o formato chegou por aqui com toda a pompa e com um teor fetichista ainda mais alto do que antigas coleções de lombada da Salvat e da Planeta DeAgostini. Ao passo que, já vimos por onde este caminho nos levou.

O coffee table book

Em certa medida é possível traçar um paralelo com o omnibus e o coffee table book ou “livro de mesa”. Este tipo de livro se refere a itens de feitura apurada e acabamento artístico e luxuoso que ficam expostos em ambientes sociais, ao invés de acomodados em estantes e prateleiras. Por se tratar de obras com apelos visuais e sensoriais bastante únicos, é possível dizer que:

“a relação do consumidor com esses produtos se caracteriza mais por sentimentos vinculados à posse de algo do que propriamente pelos motivos que o levaram a consultar os livros convencionais, a saber, ter acesso à informação e ao entretenimento” (Barbosa, 2014)*

Além disso, o livro de mesa é um dispositivo que serve como um marcador de reconhecimento sociocultural capaz de despertar subjetividades relacionadas ao bom gosto, estilo de vida e distinção cultural, promovendo, intencionalmente ou não, aqueles que os possuem. Dito em outras palavras, ser o dono de um desses livros pode lhe render um destaque social, afinal são livros de alto valor, com acabamentos luxuosos e normalmente de dimensões maiores. O que os tornam as vedetes dos lugares que estão ao atraírem todos os olhares.

Marvel Comics Library. Fantastic Four. Vol. 1. 1961–1963 Editora Taschen

Alto valor, edições suntuosas, proporções incomuns, imponentes ao olhar e de manuseio peculiar. Isso não te lembra algo?

Uma outra peculiaridade dividida entre o omnibus e o livro de mesa é que ambos se tornam peças valiosas e cultuadas mais por ações de marketing do que por suas qualidades inerentes. Não que as editoras de quadrinhos façam muito dessas ações, salvo uma ou outra live em suas redes sociais. Todavia, visto a carência de determinados materiais no mercado nacional, o próprio público transformou o formato em uma tábua de salvação para a publicação de certos títulos e fases consagradas. Tornando assim, essas obras em volumes inestimáveis.

O lombadeiro e o objeto-fetiche

Não estou dizendo, é claro, que o omnibus é um vilão a ser combatido ou que as pessoas não devam comprá-los. De fato, em outro momento ele poderia até mesmo ser entendido como um amadurecimento do nosso mercado nacional. Mas pensando nos valores cada vez mais altos cobrados pelas editoras e na alardeada diminuição do público leitor, fica impossível não pensar o formato como uma evolução fetichista do mercado.

Lembrando que o setor vem apostando em materiais cada vez mais luxuosos e que os omnibus são apenas a ponta do iceberg. Outros formatos estão sendo explorados, tais como a coleção Grandes tesouros Marvel da própria Panini, as edições integrais da Pipoca & Nanquim ou a Edição de artista, que por enquanto ganhou somente um único exemplar por aqui.

Todos esses materiais convergem na ideia de serem para uma nata de colecionadores. Já que, para além de suas qualidades artísticas, tais obras se explicam também pela materialidade da aparência, manifestada em suas características físicas.

Para um quadrinho ser publicado no Brasil ele precisa, antes de tudo, vir com determinados atributos para não ser rechaçado pelo público. O espírito lombadeiro persiste e caminha entre nós a passos largos, em um processo circular que foi bem exposto pelo QnS neste vídeo aqui.

Coleção Marvel Salvat

Entretanto, discordo da análise que a culpa deste processo está intimamente ligada ao colecionismo. Como disse, anteriormente aqui e aqui, a pessoa que coleciona é guiada por um objeto-tema, enquanto é possível dizer que o lombadeiro é orientado pelo objeto-fetiche. Um item que, antes de tudo, precisa atingir certos parâmetros estéticos e seja capaz de produzir sensações de satisfação de posse.

A graça não está mais em ler o quadrinho, mas sim tê-lo e deixar a estante bonita ao expor os volumes; pouco importando a relevância do quadrinho em si. Tanto que, no período das coleções de capa dura e lombada, brincávamos com a existência de edições definitivas de personagens como Deadpool. Igualmente, algo semelhante começa a se repetir no formato omnibus, mesmo que lentamente.

Conclusão

Insisto no ponto de que o colecionador nada ou pouco tem a ver com o consumismo desenfreado e sem critérios. Que muito desse processo de gourmetização do mercado nacional de quadrinhos não é por conta do colecionismo, mas sim de uma metodologia editorial que usa e abusa do termo coleção. Eventualmente, como forma de proteção, mas também de fomento e até mesmo criação de um tipo de público capaz de absorver suas publicações. 

O resultado de todo esse trajeto foi a figura do lombadeiro e a sua perpetuação, mesmo que subterrânea, no gosto de quem compra quadrinhos no Brasil. Uma perenização que não só prejudica o próprio público, que não aceita mais itens fora do padrão estabelecido, como também colocou as próprias editoras reféns destas exigências estéticas. 

A saída, para a sempre vindoura crise do mercado de quadrinhos nacional, passa pelo abandono do lombadeiro que há dentro de nós: leitores e editoras. Um sacrifício precisa ser feito em prol da comunidade atual e vindoura. Pois em um mundo no qual o que não falta são opções de entretenimento, é necessário que existam quadrinhos acessíveis, portas de entrada para novos leitores. Porque essas pessoas estão aí, mas como introduzi-las à nona arte quando uma boa HQ facilmente está acima dos cem reais?

Por isso, morte ao lombadeiro, vida longa aos quadrinhos! 

*BARBOSA, C. Livro de mesa: fetichismo editorial na sociedade do espetáculo // TABLE-TOP BOOKS: EDITORIAL FETISH FOR AN OSTENTATIOUS SOCIETY. Contemporânea : Revista de Comunicação e Cultura, v. 12, n. 1, p. 198–210, 14 abr. 2014.

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