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De segunda

Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

Risca faca review

Risca Faca

Bem-vindo à uma metrópole qualquer brasileira e conheça as as histórias de alguns de seus invisibilizados que percorrem as suas ruas.

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Sumário

Ficha técnica

Risca faca capa
Capa de: André Kitagawa

Risca Faca
Autor: André Kitagawa (roteiro e arte)
Preço: R$39,90
Editora: Monstra
Publicação: Dezembro / 2021
Número de páginas: 120
Formato:  (17 x 24,5 cm), Preto e branco/Lombada quadrada/Capa cartão
Gênero: Drama
Sinopse: Piru só queria saber do seu whey. Rita do seu passado glamouroso. Zoinha só quer relaxar e ter um momento seu. “Já morreu”… Bem, ele ainda não sabe o que quer. Histórias aparentemente separadas, mas que se encontram nas encruzilhadas perdidas de uma capital qualquer.

***

O cenário de quadrinhos brasileiro é vasto, tão vasto que às vezes leva um tempo para esbarrarmos em determinado quadrinista. E esse foi o meu caso com o André Kitagawa. Mesmo estando presente em páginas da Front e da saudosa Graffiti 76% ou ganhado o prêmio de Artista Revelação no HQ Mix de 2003; não me lembro de ter lido algo do paulista. Então lá estava eu no FIQ quando me deparei com Risca Faca, seu último lançamento, e já adianto que foi um encontro bastante fortuito.

Lançada em 2021, a HQ marca o retorno de Kitagawa, após um hiato de 15 anos, e também a entrada da Monstra, comic shop paulista, no mercado editorial. E apesar de não ser do meu feitio, acho válido comentar que o projeto editorial é excelente, com papel de boa gramatura e detalhes ásperos na capa, na lombada e contracapa. 

Falo deste detalhe, pois a aspereza é algo que permeia as três histórias do quadrinho. A realidade expressa aqui é dura, arisca, violenta, rude, inóspita e indiferente. E os seus habitantes caminham por ela como se cruzassem um labirinto de arestas afiadas que não poupam nada e nem ninguém. Bobeou é tchau tchau.

Presos nesse dédalo e sem muitas expectativas todos os personagens da HQ estão em busca de algo que lhes dê alívio, mesmo que momentâneo, de todo esse cenário cruel. Mas a própria procura por esse descanso é perigosa e pequenos detalhes podem levar tanto a redenção quanto a danação. Ao passo que, o que vemos, não é a crueza de um jogo de dados, mas sim o que há de pior em nossa realidade brasileira.

Risca Faca ou dos invisíveis 

Em entrevista ao Ramon Vitral, do Vitralizado, Kitagawa diz que seus personagens são como “alienígenas tentando viver um ambiente inóspito”. Com efeito, podemos vislumbrar o quão a margem da sociedade eles estão. Invisíveis na maior parte do tempo, monstruosos quando vistos ao se aproximarem demais dos tais cidadãos de bem. 

Arte de: André Kitagawa

E apesar de poucos, os momentos são bastante marcantes e demonstram bem como as tragédias de nossa sociedade nascem dessa marca dupla dada a boa parte de nossa população. Todavia, essa característica vai flutuando entre as três histórias da HQ, mas sem deixar de estar sublinhada em todas as suas páginas. 

Como por exemplo, em o Filho da mãe, onde apesar de Kitagawa criar boas sequências demonstrando esta  invisível monstruosidade, abre espaço para outras violências. Onde, entrecortados por uma violenta relação edipiana, Piru e sua mãe Ryta dos patins, vivem em uma ocupação no centro da cidade enquanto relembram os dias de ouro de um passado abonado. Um no qual o antigo playboy estava somente preocupado com seu corpo e seu whey protein e ela vivendo dias de glória ao encantar todo e qualquer homem. 

Para além da questão do corpo, Kitagawa também trabalha a questão dos velhos e novos ricos em nossa sociedade, onde influencers digitais ditam as novas regras e fluxos de dinheiro e atenção. O que por sua vez reflete de uma forma bastante peculiar a noção de quem deve ser visível ou não nos dias atuais, principalmente ao final da primeira história. 

A cidade como palco

Outro ponto a ser destacado em Risca Faca é como o próprio espaço urbano deve ser absorvido por quem lê a HQ. A cidade é um imenso jogo de luz e sombras que reflete este movimento de ocultar e revelar. Como o autor diz na entrevista com Vitral:

“Fiz questão de explorar a diversidade e os contrastes do espaço urbano”, conta Kitagawa. “Tem o centro, mas tem a periferia,  tem bairro de rico… Vias expressas que funcionam como muros separando esses espaços, segregando as pessoas. Essa conformação determinando os rumos dos personagens… É São Paulo, mas também é um planeta imaginário.”

Nesta fala é importante destacar o trecho sobre os rumos dos personagens e este ir e vir pela cidade.. Afinal de contas, a simples prática de transitar de um ponto a outro esconde perigos inesperados. Tanto que em Zoinha, que vemos como este local hostil que se tornou a pólis, trata aqueles que ultrapassam os seus limites.

Uma coisa a se notar é a ironia fina do quadrinista na escolha do nome dos personagens e as nuances e detalhes a serem desenrolados nas histórias. Ao passo que a escolha por Zoinha não é aleatória e que faz pensar em como a personagem atua como o coro em uma tragédia grega. Pois, apesar de dar nome a segunda história, ela não é a protagonista e seus olhos servem para testemunhar a crueldade do dia-a-dia e além.

A margem da margem

Contudo é em Já morreu, que a HQ nos mostra toda a aspereza do ambiente urbano. Narrando a jornada de um homem negro em situação de rua, o quadrinista mostra o quão fácil é ser empurrado para a margem da margem. Tudo em uma espiral de violência onde a invisibilidade de uns faz com que segredos ainda mais obscuros fiquem nas sombras.

Um dado curioso é que em 2020, de uma maneira bastante diferente e bem mais leve, o tema  foi tratado em Penadinho: Lar do selo Graphic MSP. Demonstrando que o assunto é um dos maiores problemas a serem enfrentados por nossa sociedade. De acordo com os dados de 2021, são 184.638 pessoas em situação de rua no Brasil. 

Voltando à Risca Faca, Kitagawa amarra uma série de pontas na história final de Já Morreu, dando a HQ aquela sensação de ouroboros: fechando no mesmo ponto onde começou – a mesa de um boteco copo sujo na zona baixa da cidade. Dando as histórias um tom fantasioso e melancólico, já que estas narrativas estão fadadas a se perpetuarem no tempo e no espaço de nossas grandes cidades.

Conclusão

Marcelo D’Salete no prefácio da obra diz que os personagens retratados pelo autor estão à deriva, engolidos por atos e forças estranhas e inevitáveis. Lutando contra essas ações, levam socos e pontapés sem saber exatamente os motivos para tanta violência. 

Talvez essa seja a origem de toda a loucura dessa nossa tragédia cotidiana: a incompreensão destas forças titânicas que continuam a produzir miséria e dor. De tal forma que aos meros mortais do lado de cá dos holofotes continuemos a jogar pedras como Risca Faca. 

Mas se engana quem acredita que a obra caia em um didatismo pueril ou superficial. Cada um dos personagens apresentados possui múltiplas camadas e as histórias se conectam criando um universo coeso, denso e extremamente realista. Uma realidade concreta e que está ali em nossas esquinas, ruas, becos e vielas.

E fica aqui a minha torcida para que o hiato do autor desta vez seja breve e que possamos ver mais das nossas cidades sob o seu olhar. 

Nota: 5

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