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De segunda

Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

Batman - Cavaleiro Branco do futuro review

Batman – Cavaleiro Branco do futuro

Um novo Cavaleiro das Trevas surge em Nova-Gotham e apenas Bruce Wayne sabe dos perigos que isso pode acarretar. Conheça o novo capítulo do Murphyverse

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Sumário

Ficha Técnica

Batman - Cavaleiro Branco do futuro capa
Capa de Sean Murphy

Batman – Cavaleiro Branco do futuro
Autores: Sean Murphy (roteiro, ilustrações e capas), Dave Stewart (cores) / Clay Mccormack (roteiro), Simone Di Meo (ilustrações e cores), George Kambadais (ilustrações)
Preço: R$ 114,90
Editora: Panini / DC (Black Label)
Publicação: Julho / 2023
Número de páginas: 264
Tradução: Paulo França
Letras: Diogénes Diogo
Formato: Americano (17X26 cm) Colorido / Lombada quadrada / Capa dura
Gênero: Super-heróis
Sinopse: Em dez anos Gotham mudou e passou a viver em um estado policial. A criminalidade quase não existe, mas a liberdade também não. Com isso, surge um novo Batman na cidade e apenas Bruce Wayne sabe dos perigos que isso pode acarretar. Mas para dar o aviso, ele vai precisar fugir da prisão.

***

Falar sobre determinadas edições é algo complicado, como é o caso dessa. Desde o início do Murphyverse, lá em 2017, o nível do sarrafo vem subindo a cada novo tijolinho deste universo. Sim, eu gostei do que vi sendo construído às margens da continuidade mesclando elementos dos quadrinhos e do desenho Batman: A Série Animada e tomando todas as liberdades para criar algo único. Então as expectativas para Batman – Cavaleiro branco do futuro estavam ali um tanto quanto altas, admito.

Avançando no tempo, a terceira parte da, até então, trilogia de Sean Murphy salta dez anos no futuro para mostrar o mundo que Bruce Wayne deixou para trás ao ir para a prisão após os eventos de Batman: A maldição do Cavaleiro Branco. Tudo mudou e Gotham agora exala cores neons, uma paisagem futurista irreconhecível como diz o próprio Jason Todd a Bruce. Nova-Gotham é uma cidade vivendo agora em um estado policial, onde a OTG, comandada por Dick Grayson, conseguiu eliminar todos os super-criminosos a custo bastante alto: a liberdade de sua população.

Arte de Sean Murphy

É tendo contato com esta nova realidade, logo após ajudar a conter uma rebelião dentro de Blackgate, que a HQ começa e joga o antigo cavaleiro das trevas em rota de colisão com o novo Batman. Bem, sendo sincero, a HQ começa mesmo com a descoberta do traje mais poderoso do Batman, pelas mãos de Terry McGinnis, guiado pelo empresário Derek Powers.

O cavaleiro branco do futuro

Para quem já conhece a série animada Batman do futuro, sabe que este início é, ao mesmo tempo, familiar e estranho, pois Murphy mais uma vez muda peças de lugares para compor algo que acena aos fãs mais hardcores do morcego, mas que também funciona sozinho. Eventualmente, outros elementos conhecidos se farão presentes, como a estética e a caracterização da série, mas de forma a se encaixar na história e principalmente no universo criado pelo roteirista norte-americano.

Aliás, não são só componentes da série que estão presentes na HQ. O filme  Batman do Futuro – O Retorno do Coringa também é revisitado, contudo de forma diferente. Aqui o mote do filme é retrabalhado para que o Coringa, quer dizer, Jack Napier possa voltar do mundo dos mortos. Voltando como uma IA implantada no cérebro de Bruce, Napier ocupa um papel interessante: ele é tanto um batcomputador ambulante, como também um fanboy que vibra com o retorno do personagem a ação.

É explicado que Napier, após nocautear Bruce em Batman: O cavaleiro branco, implantou um chip de memória em sua cabeça para uma possível crise no futuro (e as pessoas acreditando que só o Batman é preparado). Algo que, a princípio, não faz muito sentido já que os dois naquele ponto eram antagonistas; porém é algo que acaba por produzir um alívio cômico e várias boas interações entre os dois. Por conta disso e mesmo sendo necessário uma boa dose de descrença, vamos dar uma colher de chá ao roteirista.

O novo Batman e Nova-Gotham

Voltando a Terry McGinnis, a forma como Murphy conseguiu encaixá-lo dentro de seu universo demonstra bem a alquimia que o autor faz para manter a essência dos personagens em seu elseworld. Ele ainda está em busca pela resolução do assassinato de seu pai, impulsivo, além de possuir um código moral inerente que o faz questionar os danos causados por Derek Powers em sua busca pelos dispositivos do Batman e outras tecnologias espalhadas por Nova-Gotham.

Tudo isso, mais uma vez, se mostra extremamente familiar para os antigos fãs do desenho animado, ao mesmo tempo em que o transforma no motor de start para esta terceira parte da história do cavaleiro branco. Além disso, colocá-lo à sombra de Derek Powers, ao invés da orientação de um solitário e taciturno Bruce Wayne, dá ao personagem toda uma subtrama envolvendo o que representa o Batman e o seu juramento de não matar.

Arte de Sean Murphy

Ainda sobre o aproveitamento dos componentes da série Batman do futuro, Nova-Gotham está soberba no traço de Sean Murphy. Todo o fator cyberpunk da série está presente, com direito a pequenos easter-eggs a Blade Runner, mas com acréscimo de ingredientes para compor o estado totalitário que a cidade agora vive. Tais como os constantes dirigíveis no céu, que a todo momento iluminam as ruas da cidade.

Outro ponto em relação a cidade é a grandiosidade de sua arquitetura. Imensos arranha-céus espelhados e prédios brutalistas substituíram os antigos prédios com gárgulas e art-déco. Suas luzes estão mais vibrantes e agora injetam tons de vermelho e laranja que contrastam com os tons roxos que imperavam na cidade (e nas séries anteriores) do passado. Como Napier diz: “é difícil acreditar que uma cidade pode mudar tanto a sua essência”.

Ainda sobre a cidade e as suas cores, gosto muito da ideia apresentada por Jeremy Bernard em sua resenha da primeira edição que diz:

“Dave Stewart é o responsável pelas cores desta edição e faz um trabalho incrível complementando o trabalho de Sean Murphy. As cores estão escorrendo nas entrelinhas quando a história é nebulosa, nítidas quando as palavras precisam ter força e, por fim, definem o clima para cada painel em perfeito uníssono com os muitos enredos que convergem nesta história em quadrinhos. Não sei se estou lendo muito sobre isso, mas o fato de a representação de Gotham no passado ser colorida com um lindo roxo suave parece ser uma dica de como ela contrasta com o futuro. O futuro está sempre coberto por um tom laranja ardente que na roda de cores fica quase no oposto do roxo. Embora o roxo esteja quase do outro lado do laranja, ainda está mais próximo do que o amarelo, o que pode refletir como o passado foi radicalmente mudado, mas que o passado também não é o oposto do futuro de Gotham, mas sim uma aceleração radical das piores falhas de Gotham” [tradução via Google tradutor].

Tudo para jogar o fugitivo Bruce Wayne em um mundo alienígena e que ele deverá ajudar a recompor e encontrar novamente a sua natureza.

Uma história sobre família e reconciliação

Recuperar a sua essência talvez seja o ponto de Batman – Cavaleiro branco do futuro. Não é só a Nova-Gotham que mudou, toda a batfamília está diferente e não necessariamente para melhor. 

Dick Grayson agora é o comandante da OTG; Barbara Gordon se tornou a comissária de polícia e ambos, apesar de terem um relacionamento e um filho, já não mais se falam. Jason Todd, permanece à margem e envolto em seus traumas do passado e Bruce, apesar de no início da HQ se mostrar aberto ao diálogo e reconhecer seus erros com seus antigos aliados, logo volta ao ciclo de lobo solitário buscando afastá-los.

Batman cavaleiro branco do futuro review
Arte de Sean Murphy

Algo que vocês já devem ter reparado é que tenho citado bastante o próprio Bruce ao invés do Batman. Isso acontece, pois nesta terceira etapa, o personagem está desconectado de seu alter ego; renegando o seu próprio símbolo e legado. O que, por sua vez, gera uma cena bastante impactante quando o ex-bilionário se coloca frente-a-frente com uma versão do seu traje futurista. E como ler quadrinhos é também fazer uma leitura visual de seus elementos, esta cena ocupar uma página inteira diz muito sobre o peso deste momento.

Muito na HQ gira em torno desse sentimento de desconexão e reconciliação. Sendo eles compartilhados por Harley Quinn e seus filhos: Bryce e Jackie, que agora já são adolescentes. A família também está em crise e sofrendo com o distanciamento de Bruce e a descoberta de Jackie sobre a morte de seu pai, o que por sua vez irá levar a adolescente a se rebelar e partir em uma cruzada própria.

Eventualmente, a própria Harley tem suas questões para resolver com Bruce, já que Murphy avança com a ideia que vemos em Batman – Cavaleiro Branco Apresenta: Arlequina e o que era um romance latente, agora se tornou um  conturbado casamento ocorrido nesses dez anos de prisão. Algo que, como mostra a HQ, teve a sua pedra de roseta em um imbróglio judicial, mas que possui toda uma tensão; ainda mais com a volta de Jack Napier, como grilo falante. Um triângulo amoroso não muito bem resolvido.

Quando menos é mais

Como vocês podem ter percebido Batman – Cavaleiro branco do futuro é repleto de subtramas e personagens. Muito disso, acredito, que vem da vontade do autor em dar um final a todos que já apareceram nas minisséries anteriores e também abrir caminho para outros aparecerem em seus spin-offs. Tais como os próprios filhos do Coringa que já ganharam uma minissérie para chamar de sua ou a transformação de Duke Thomas no mais novo Robin.

Entretanto, o peso somado de tantos elementos faz com que a HQ desabe sobre si mesma. Há muita coisa acontecendo, mas muita mesma. Tantas que algumas, são completamente desnecessárias como as duas edições de Batman: White Knight Presents: Red Hood

Arte de Sean Murphy

Escritas por Clay Mccormack e com arte de Simone Di Meo e George Kambadais, os dois números focados em Jason Todd tentam explicar o que ele fez durante todos esses anos afastados de Bruce numa história boba, onde ele acaba treinando uma adolescente para ser uma nova Robin. Tudo para mostrar que Todd não é tão diferente assim de seu mentor. A sensação ao final da leitura é de estarmos diante de uma aventura filler que quase nada acrescenta à história principal, a não ser introduzir mais uma personagem a trama central: Gan.

Subtramas? Quero!

Para não nos perdemos vamos recapitular tudo o que acontece na minissérie:

  1. Bruce escapa da prisão para resgatar seu legado das mãos de Derek Powers;
  2. Jack Napier retorna dos mortos para uma possível reconciliação com Bruce e uma última despedida com Harley;
  3. Jackie está uma campanha para entender o legado de seu pai Jack Napier/Coringa;
  4. Terry está investigando o assassinato de seu pai, enquanto desconfia das reais intenções de Powers;
  5. Duke Thomas vem se tornando o novo Robin e algumas informações são jogadas aqui e ali para explicar o motivo disso;
  6. Dick Grayson continua com raiva de Bruce e esse sentimento o tornou um crápula e suas ações na OTG o afastaram de sua própria família;
  7. O envolvimento amoroso (?) de Harley e Bruce avança, com direito a um casamento arranjado.

Reparem que nem cheguei a falar do vilão e de suas motivações, que só para deixar claro é o próprio Derek Powers, algo que os fãs mais ardentes já devem ter previsto. Embora Powers continua bem próximo do que é apresentado na série animada. Aqui em Batman – Cavaleiro branco do futuro ele possui uma causa maior, um projeto secreto e que justifica a sua corrida armamentista. Um segredo que só será revelado ao final da minissérie, mas que todos nós já sabemos qual é.

Toda esta movimentação faz com que o roteiro seja constantemente interrompido. Nada é muito aprofundado e algumas informações e eventos são jogados aqui e ali, mas sem muita cola, o que faz com que o leitor precise comprar de olhos fechados o que está sendo vendido. 

O resultado disso é que desta vez o processo alquímico de Sean Murphy falha e não entrega tudo o que poderia. Sendo muito da culpa disso a extensão da história que se esparrama sem conseguir se agarrar em algo.

Batman – Cavaleiro Branco do futuro ou de um final não tão brilhante

Ao final da leitura da edição de luxo da Panini, que compila toda a minissérie mais o spin-off de Jason Todd, fiquei pensando em todo o caminho até aqui. Como “O cavaleiro branco” e “Maldição do cavaleiro branco” renovaram conceitos da mitologia mesclando diferentes versões do cavaleiro das trevas, ao mesmo tempo, em que a arte de Sean Murphy entregou repetidamente cenas e layouts incríveis.

Muito do brilho desse elseworld veio da combinação desses fatores, mas o principal fator era como as histórias faziam com que você se importasse com esse novo universo. Foi a minha porta de entrada e o que me fez ficar e esperar o que o Murphyverse tinha a dizer. Por isso que disse lá atrás que as expectativas eram altas. 

Batman – Cavaleiro Branco do futuro era para fechar com chave de ouro a trilogia iniciada em 2017. Contudo, o que se vê não é exatamente isso e ao resolver contar uma história, repleta de personagens e linhas narrativas, sobre a disputa final pelo coração de Gotham, Sean Murphy se perde e com isso perdemos todos nós. Tudo fica ainda mais nublado quando lembramos que foi este o mote inicial e que nos carregou até aqui. 

Esse fato fica ainda mais irônico, quando em diversos momentos os personagens ficam falando de uma tal guerra civil, que a população de Gotham não aceita mais os desmandos da OTG e hora nenhuma isso é mostrado. Há um afastamento das questões sociais abordadas em volumes passados e um foco exagerado no lado heroico da aventura.

Isso sem falar em um maior esmero com as próprias regras criadas por Murphy e algumas caracterizações dos próprios personagens. Por exemplo, Duke Thomas foi voz da razão nas séries anteriores e não faz nenhum sentido ele estar trabalhando em uma OTG totalitária.

Ao invés de um final, reticências

A sensação que fica ao final da leitura é que talvez, na pressa de crescer e se desenvolver, o Murphyverse tenha dado um passo maior que as próprias pernas. Era necessário enxugar as histórias, fazer com que elas realmente criassem uma ligação entre personagens e leitores. Tornar o embate final por Gotham e pelo legado do Batman em algo verdadeiramente importante, o que me faz pensar em um número maior de páginas para este desenvolvimento.

Porém, tudo isso ganha um novo verniz com o final apresentado. Afinal de contas, o que era para ser a última parte de uma trilogia se mostra como um preâmbulo, já que agora tanto o Batman quanto a batfamília deve se preparar para um encontro com deuses. 

Arte de Sean Murphy

Não que isto melhore as falhas da HQ, contudo esta reformulação de um ponto final para reticências deve ser visto como uma possível interferência editorial. Por que terminar a história do cavaleiro branco sem revisitar uma de suas obras seminais? Acho que a tentação foi grande demais para o roteirista norte-americano resistir.

Conclusão

Para não dizer que não falei de flores, uma coisa tenho que manter os elogios: a arte e a composição das páginas feitas por Murphy. São vários os quadros e páginas de se tirar o chapéu e espero que a seleção acima tenha feito jus ao que vi na HQ.

Além disso, o cuidado com as sombras dos personagens continua lá. O que em Batman – Cavaleiro Branco do futuro ganha novos contornos e que, na falta dos uniformes, nos serve como um lembrete da real essência dos personagens. 

Também fica aqui o meu elogio para os ganchos entre as edições ou capítulos aqui no caso. Cada uma das edições termina com uma página final única e impactante e que me faz lembrar em como os formatos podem influenciar na nossa leitura. Afinal, a minissérie saiu de forma mensal lá fora e esses ganchos são fundamentais para manter o interesse do público. 

Ademais, o trabalho de Dave Stewart com as cores é preciso e consegue criar as auras certas para as cenas do quadrinho, não deixando nada a desejar ao trabalho de seu antecessor Matt Hollingsworth. 

Encerrando, esta longa crítica, deixo as minhas esperanças para que Murphy consiga corrigir a rota escolhida e os próximos capítulos do Murphyverse sejam mais contidos e voltem a entregar o que realmente importa: boas histórias.

Nota: 2 de 5

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