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De segunda

Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

Eu matei Adolf Hitler review

Eu matei Adolf Hitler

Eu matei Adolf Hitler, o mundo não deveria ser melhor? Talvez a resposta não seja tão simples assim

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Sumário

Ficha técnica

Eu matei Adolf Hitler capa
Capa de: Jason

Eu matei Adolf Hitler
Autor: John Arne Sæterøy – ‘Jason’ (roteiro e arte), Hubert (cores)
Preço: R$44,00
Editora: Mino
Publicação: 2019
Número de páginas: 48
Formato:  (17 x 24,5 cm), Colorido/Lombada quadrada
Gênero: Drama
Sinopse: Em um mundo onde assassino de aluguel é uma profissão legítima, um cientista contrata um desses profissionais para voltar no tempo e matar Adolf Hitler.

***

Muito se fala em como a Mino foi a casa de Jeff Lemire e Ed Brubaker no Brasil. Contudo, é possível dizer que a editora paulista trouxe para cá, vários autores interessantíssimos, sendo o quadrinista norueguês Jason um dos nomes da lista. E para enfim conhecê-lo decidi começar por sua HQ com o título mais chamativo: Eu matei Adolf Hitler.

Para começar vamos deixar algumas coisas claras. Hitler foi um canalha. O nazismo e o fascismo são regimes da extrema-direita e que devem ser combatidos com todo o nosso fervor. Tamanhas foram as barbaridades cometidas que não foram poucos os filósofos, historiadores, sociólogos e antropólogos que se debruçaram sobre o tema. Afinal, tínhamos que processar aqueles horrores e lutar para que eles não sejam reproduzidos. 

E dentre os conceitos criados, há o da banalidade do mal, da filósofa Hannah Arendt. Em seu livro Eichmann em Jerusalém, Arendt defende que a banalidade do mal advém da mediocridade do pensar e não necessariamente de um desejo ou premeditação, personalizado em uma figura demoníaca. Em outras palavras, o mal surge no momento em que o institucionalizamos através do não pensar; onde esses atos atrozes são cometidos por todos e por ninguém em um vale tudo onde a alteridade – o outro-  é esmagada. 

Esta banalidade do mal fica mais clara em sistemas totalitários, baseados no medo, que buscam igualar atos violentos a atividades banais. Algo onde um apertar o gatilho é comparado com o ato de bater um carimbo em uma folha. Confundindo os valores éticos individuais e o comportamento violento e duvidoso de seu grupo extremista, o regime busca trivializar a violência. De tal forma que atrocidades são cometidas por estarem dentro da lei, legitimadas por uma ética imoral.

Eu matei Adolf Hitler, o mundo não deveria ser melhor?

Analogamente, o mundo criado por Jason é onde a profissão de assassino de aluguel está legalizada e vista como uma entre várias. Algo possível a se recorrer como quando ligamos para um encanador ou eletricista a fim de que resolvam um problema. E para demonstrar os valores que regem esse mundo, o quadrinista cria uma abertura brutal. 

A descrição de uma masturbação embalando um assassinato e que ao final acaba em um término de relacionamento. Duas páginas e temos os nossos protagonistas, seus dilemas e o mundo em que vivem. Rápido, seco, banal, impessoal e aborrecido. 

Arte de: Jason

O que vemos a seguir, é uma procissão  de pessoas que recorrem ao assassino, para resolverem os seus diversos problemas. Sejam eles o seu pai, filhas, colega de trabalho, ex-companheira, mãe. Pessoas são executadas nas ruas, em seus carros e casas e o que mais impressiona é a burocratização desses atos. Sendo que, até o protagonista sofre um atentado enquanto jantava na sala de sua casa.

Em meio a isso tudo, um cientista procura o matador e conta o plano para matar Adolf Hitler: voltar no tempo e meter uma bala na cabeça do nazista. Mais uma coisa trivial, tanto quanto comprar pão na padaria da esquina. E essa é a genialidade do roteiro de Eu matei Adolf Hitler. 

Da névoa e do silêncio

Há uma total banalidade nos eventos no universo criado por Jason. Uma aura que entorpece os seus personagens e que os afasta uns dos outros. Não à toa, enquanto lia, ficava pensando na total ausência de empatia e até mesmo de vivacidade em todos os que surgem em cena. Há um vazio que marca justamente a jornada vivida pelos dois protagonistas da HQ: o assassino e sua ex-namorada.

Analogamente, é possível também pensar na falta de esferas públicas que representam esse espaço em comum numa sociedade, tais como tribunais de justiça e de conciliação. E digo isso, pois vários dos problemas que servem como justificativas a aqueles que encomendam os crimes, poderiam ser resolvidos por estes canais.

Em contraponto a todo esse distanciamento entre as pessoas há o silêncio. E é muito importante reparar em seu uso pelo quadrinista norueguês. São vários os quadros mudos na HQ, mas alguns deles são especiais em virtude de expressarem uma descontinuação desse vazio, desse não-pensar.

Arte de: Jason

Desta forma, o silêncio em Eu matei Adolf Hitler serve tanto para que a história respire, quanto para que o personagem e aquele que lê, possam absorver o que está acontecendo e também para acessar outras camadas de compreensão. Pois, a sociedade criada por Jason é apenas um reflexo do que vemos aqui fora. Mais escancarada em sua violência e intolerância, mas também em nossos medos.

Em virtude disso, a arte de Jason e seus personagens antropomórficos fazem um curioso movimento de imersão: ela universaliza, porém também aproxima a história de quem a lê. Mesmo quando a arte explicita a violência, de forma ordinária, ela faz com que a HQ reverbere, criando espaços de reflexão. Afinal de contas, sem Hitler, o mundo não deveria estar melhor?

Conclusão

Eu matei Adolf Hitler é um pequeno petardo e há muito a se falar sobre ela. O que fiz aqui foi chamar atenção para uma parte do enredo. Existem diversos outros pontos que podem ser evocados e mostra que para ser grande, uma história em quadrinhos não precisa de muitas páginas. O que ela precisa é pegar um tema e direcioná-lo aos corações incautos daqueles que a leem. E isso, Jason faz com maestria.

Nota: 4

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