Críticas de segunda e Opiniões de quinta sobre Quadrinhos

Por Thiago de Oliveira

Retrato falado review

Retrato falado – um quadrinho de briga

Uma vida sob a ditadura, um dia que não terminou, um relato cru sobre os anos de chumbo e sobre aqueles que lutaram e sofreram.

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Ficha Técnica

Retrato falado - um quadrinho de briga capa
Capa de Lor

Retrato falado – um quadrinho de briga
Autor: Lor (roteiro e desenhos)
Preço: R$ 40,00
Editora: Mambembe Livros
Publicação: Agosto/2023
Número de páginas: 116
Formato: 13,5 x 20,5 cm, Preto e branco/Lombada quadrada
Gênero: Drama
Sinopse: Uma vida sob a ditadura, um dia que não terminou, um relato cru sobre os anos de chumbo e sobre aqueles que lutaram e sofreram.

Não gosto de dizer que o Brasil é um país sem memória. Prefiro dizer que é um país onde a memória, assim como outras coisas, está em disputa. Pois há sempre aqueles que lembram, que buscam contar e recontar as histórias que fizeram com o que nosso país seja o que é. Tanto as boas, como as monstruosas. Mesmo que exista um projeto institucional de apagamento das do segundo tipo. Por isso, termos uma nova edição de Retrato Falado, agora pela Mambembe Livros, é algo notável.

Admito que não conhecia a HQ e nem o autor e agradeço, mais uma vez, ao FIQ que se mostra sempre como esse ponto de encontro entre público e quadrinistas. Lor, inclusive participou da mesa de debate Ditadura nunca mais! Quadrinhos e os 60 anos do golpe civil-militar com a quadrinista Julhelena e com o quadrinista Matthias Lehmann.

Publicada entre 1979 e 1980, ainda durante a ditadura militar brasileira, a HQ conta a história do golpe no fictício país Rosário e todos os seus desdobramentos políticos, sociais e pessoais. Contudo a HQ não é só um retrato do que aconteceu no Brasil, mas também um testemunho febril que costura diferentes focos narrativos para tentar dar conta da assustadora realidade que se instaurou no país durante 21 anos.

Retrato falado das ditaduras militares

O Brasil não foi o único país em nosso continente a enfrentar uma ditadura militar. Toda a América Latina sofreu uma onda de golpes de estados financiados pelos EUA a partir da década de 50 e em todas elas o que se viu foi a ascensão do militarismo no poder, perseguições políticas e repressões contra a sociedade civil em nome de supostos inimigos internos.

Censura, inúmeras violações dos direitos humanos, torturas, mortes e desaparecimentos passaram a fazer parte do cotidiano desses países. Mas talvez o que mais tenha marcado em todas elas é o nível de brutalidade e violência praticado pelos regimes contra a sua própria população. No entanto, mesmo sendo um projeto sistemático de controle, o pior do “horror da ditadura vem da falta de lógica”, como disse Lor durante a mesa no FIQ.

Não à toa, tantas obras se debruçam sobre o tema com o intuito de investigar os atos ocorridos durante o período e seus múltiplos efeitos. Buscavidas, de Carlos Trillo e Alberto Breccia, são um exemplo sobre a banalização do mal e da violência da ditadura militar argentina. Para ficarmos em outro exemplo do universo da nona arte, temos Os Fantasmas de Pinochet, de Félix Vega e Francisco Ortega, sobre a ditadura no Chile.

Porém, Retrato falado ocupa um lugar ímpar no caso brasileiro. Como diz o crítico e jornalista Érico Assis na quarta página: “Quase ninguém fazia HQs de 100 páginas no Brasil dos anos 1970”. Não que não houvesse publicações que fizessem contraponto ao regime militar brasileiro durante o período, mas chamo atenção a este detalhe da fala de Assis: HQ.

O dia que não terminou

Arte de Lor

Gosto de dizer que algumas coisas só podem ser feitas nos quadrinhos. Seja a estrutura simétrica do capítulo cinco de Watchmen, seja os imbricados layouts das páginas criados por Andrea Sorrentino em Gideon Falls ou a metalinguagem de quadrinhos como Meta – Depto. de Crimes Metalinguísticos ou Imbatível; há coisas que somente este tipo de mídia pode proporcionar. E a obra de Lor é um daqueles exemplares disso.

Dividida em duas partes, a HQ passeia por diferentes narrativas, mesclando e contrapondo acontecimentos que acabam em transições temáticas tão suaves que é quase como se estivéssemos dentro de um grande plano-sequência.

No primeiro capítulo, acompanhamos os eventos ocorridos em um único dia em Rosário. Entretanto, a trama está longe de ser linear. Ela dá voltas sobre si, misturando fatos do presente com tramas do passado, tudo para apresentar não só personagens multifacetados, mas também décadas de histórias do regime militar brasileiro. 

O movimento estudantil, a opressão contra a população rural, a censura dos meios de comunicação, a morte do jornalista Vladimir Herzog (que ganha um homônimo aqui), o golpe dentro do golpe (com os ditos militares moderados sendo engolidos pelos da linha dura através do AI-5), a luta do movimento sindical por melhores condições de trabalho e as ações dos grupos da luta armada.

É como se Lor quisesse dar conta de tudo, falar sobre todos e contar a história deste dia que não terminou. Narrar em primeira mão o que estava acontecendo, ora tendo uma visão macro das coisas, ora esmiuçando as histórias miúdas. Um processo historiográfico a contrapelo como diria o filósofo Walter Benjamin.

Ao passo que na segunda parte de Retrato Falado o quadrinista foca a sua história em Otávio, um relutante do movimento estudantil, para contar os horrores daqueles que foram presos e torturados, mas não só. Há espaço para discutir o próprio movimento estudantil e suas questões internas, assim como demonstrar as idiossincrasias daqueles que trabalhavam para a própria ditadura militar. Mas sobretudo o horror que aqueles que sobreviveram carregam.

Conclusão

Em 2024, se completaram 60 anos do golpe militar e o que vemos é um silenciamento dos órgãos institucionais sobre o tema. E estarmos sob um governo de esquerda torna tudo isso ainda pior, ainda mais quando já se havia um plano para a data e foi vetado pelo presidente Lula.

A justificativa do presidente para tal ato é de que a ditadura era algo do passado e que deveríamos seguir em frente. Ainda assim, não se segue adiante sem se entender com aquilo que ocorreu. Certos eventos traumáticos reverberam por toda uma vida e não seria diferente com a nossa sociedade. 

Retrato falado foi publicado sete anos antes do fim do regime militar. Porém, a HQ termina avançando no tempo e imaginando como seria o fim da ditadura em Rosário, mas não mira exatamente nas reverberações oficiais. Seu final é ainda com Otávio e em como a vida seguiu com todas essas cicatrizes por curar. 

Mas há uma última página, em formato de poesia, na qual repousa a mensagem sobre o passado, o presente e o futuro e a responsabilidade que temos e que reproduzo um trecho abaixo: 

“Ainda que eu fique sem vê-lo,

O que tiver sido feito

Será parte inseparável

do futuro.”

E o que o quadrinista belo-horizontino Lor fez foi algo para permanecer no futuro. Um quadrinho de briga pela memória do que ocorreu no nosso país; um quadrinho de briga para incendiar o coração dos que titubeiam; um quadrinho que briga por todos nós.

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